2016 e o Cinema

 

Este ano, de forma a assinalar o fim de 2016, o Ócio decidiu fazer algo diferente e editar um pequeno vídeo onde é feito um apanhado daquilo que o Cinema nos deu no ano transacto assim como a apresentação do top 10 oficial da equipa do blog.

Esperemos que gostem.

Crítica | Silence (2016)

 

 

No nosso país a noção de História é servida desde cedo como sinónimo de grandes conquistas e descobertas, de pioneiros e de um país numa situação outrora bem melhor que se foi perdendo ao longo das eras. Durante essa passagem de testemunho entre gerações o carácter saudosista e patriótico da mesma sobressai quando pouco ou nenhum ênfase é dado ao impacto negativo que a presença portuguesa lá fora possa ter tido em povos e locais na corrida pela hegemonia do Globo. Seria difícil manter essa ideia de um passado glorioso geração após geração com um olhar igualmente detalhado sobre as atrocidades que o acompanham pelo que a sua relegação para segundo plano é necessária para manter a ilusão de uma hegemonia limpa. Levantar esse véu demasiadas vezes traria por conseguinte um raciocínio mais aprofundado sobre certas questões que poderiam pôr em causa o orgulho que essa época dourada nos faz sentir séculos depois. Nas palavras do Dr. James Wilson: “Um problema adiado é um problema negado.”

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Crítica | Hacksaw Ridge (2016)

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Mel Gibson é um sapo duro de engolir. Se é verdade que o seu carácter tem um lado indesejável já mais que exposto e documentado, de igual forma é verdade que as suas capacidades como artista estão acima da média dos seus pares quer em frente ou por detrás da câmara. Uma abordagem à sua perda de estatuto pode por esta altura ser algo repetitivo e banal mas desde essa ocasião o seu percurso profissional – este filme incluído – apresenta uma influência sua tão forte que ignorá-la seria desprezar um ponto relevante à análise do artista e da sua obra. Nos anos após a divulgação dos seus comentários de cariz racista, sexista e tudo pelo meio Gibson foi interrompendo o seu exílio da ribalta com aparições em filmes como “Expendables 3” e o mais recente “Blood Father” onde interpretou o mesmo tipo de lobo solitário a viver à margem da lei e/ou da vida cor-de-rosa que outrora tinha sido sua, um paralelismo com a vida real que não podia ser mais óbvio. Agora na qualidade de realizador – 10 anos após o seu último esforço, “Apocalypto” – a história escolhida por Gibson para adaptar também não terá vindo ao acaso já que alguns dos temas nela incluídos vão de encontro ao seu desejo de demonstrar o seu lado mais apaziguador mantendo, ao mesmo tempo, o tipo de estrutura com que tem vindo a trabalhar com grande sucesso.

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Crítica | Ghostbusters (2016)

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É sempre difícil vender um remake. A mera perspectiva de que no futuro próximo existirá uma nova versão de uma história que já havia deixado a sua marca anos ou mesmo décadas antes é barra em despertar vários tipos diferentes de negativismo. Mesmo estando as companhias a apostar na nostalgia para poderem retirar algum lucro de uma roda que não têm de inventar é também ela que faz com que o trajecto até à data em que o público pode apreciar o novo ponto de vista seja especialmente íngreme. Pessoas não são fãs da ideia de terem de pagar pelo privilégio de verem a “mesma” coisa pela segunda vez mas odeiam ainda mais a noção de algo novo a interferir com a memória feliz à qual aquela propriedade está associada. Tendo em conta a procissão de tentativas falhadas de que há memória não é surpreendente que essa seja a primeira reacção ao anúncio de mais uma, pelo que talvez fosse inteligente da parte do estúdio responsável atiçar as chamas da discórdia o menos possível até ao momento em que o filme pudesse falar por si próprio (e as notas começassem a cair). A equipa criativa responsável pelo novo “Ghostbusters” pensou de maneira diferente, tomando a posição extremista de uma minoria como pretexto que por si não chegava para justificar o tamanho das ondas levantadas mas que torna a falta de conteúdo de relevo no resultado final extra-ultrajante.

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Os Miseráveis

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A 28 de Fevereiro do presente ano o comediante Chris Rock tomou o palco do Dolby Theatre na qualidade de anfitrião dos Oscars para entregar um discurso esperado por muitos. Ainda na crista da indignação ligada ao painel 100% caucasiano de actores nomeados para os prémios, a noite adivinhava-se quente e a escolha de Rock – feita antes do anúncio dos nomeados e consequente controvérsia – surgiu como acaso feliz para aqueles que procuravam ver o “orgulho branco” da elite do Cinema exposto no seu evento mais mediático. De início a fim as intervenções do comediante corresponderam ao esperado, focando-se no tema da desigualdade da indústria e a necessidade de mudança rápida e drástica, e fizeram-se acompanhar por um misto de rábulas e momentos sérios protagonizados por outros convidados. Nas cadeiras a audiência maioritariamente caucasiana ia acenando de sorriso amarelo em riste para os seus compinchas “de cor” – um termo da época da segregação agora usado em prol do politicamente correcto – como quem pede perdão por uma série de chicotadas emocionais que não se recordava de dar. Findas as hostilidades, o saldo da noite compôs-se de duas grandes conclusões: 1) não ficaria mal a Hollywood colocar algum cloro na sua piscina de talento e 2) a indústria ainda está longe de perceber o que isso é.

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Crítica: The Nice Guys (2016)

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Se algum dia se realizou uma cerimónia para oficializar a expressão “Em equipa que ganha não se mexe” Shane Black provavelmente marcou presença para deixar a sua assinatura e saiu com um novo mote de vida. Exceptuando talvez a sua recente colaboração com a linha de montagem Marvel em “Iron Man 3”, Black tem-se mantido mais ou menos fiel à fórmula que fez dele um autores alternativos de alto nível – passando o paradoxo – mais apelantes a trabalhar hoje em dia.  Hit ante hit de culto o seu trabalho revelou as suas influências enraizadas no noir que se traduziram ao longo dos anos em diferentes versões da mesma história de detectives e/ou vingança, partilhada por vários conjuntos de simples misfits a lutar contra uma conspiração maior. A chave da imortalidade por detrás dessas obras reside na prática de focar a maior parte da sua atenção nesses maltrapilhos e deixar a comédia, drama e acção fluir através deles. Sem surpresas, ” The Nice Guys” é mais um título que segue estes passos à risca e, sem surpresas, é também uma entrada digna de todo o legado que a precede.

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Crítica: An Education (2009)

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Embora pareça cada vez mais difícil associar uma conotação positiva à palavra “feminismo” nos dias que correm, existem ainda aqueles que encontrar o verdadeiro sentido da palavra e convertê-lo em algo que representa esse ideal de forma respeitosa e humanista. “An Education” é feminismo feito de maneira certa,  que é como quem diz que aborda a condição da mulher como membro da sociedade num período onde as condições das mesmas poderiam facilmente instigar um bombardear de propaganda anti-masculina e escolhe fazer o contrário. Esta história de uma adolescente londrina de 16 anos é o exemplo perfeito daquilo que um conto de resolução e amadurecimento (não só mas principalmente) femininos devem ser. Jenny (Carey Mulligan) vive enclausurada sob o olhar fixo de um pai bastante controlador que tomou como sua a tarefa de planear o futuro inteiro da filha, passando por um percurso académico de excelência e (como não podia deixar de ser) um casamento com o par ideal. No seu cárcere ela sonha com um mundo fora daquelas quatro paredes onde possa ter um encontro com alguma aventura e romance antes que o controlo da sua vida seja transferido entre capatazes. É aqui que entra David (Peter Saarsgard), um homem mais velho que graças à sua propensão para sherpa social cai na vida de Jenny como a resposta a uma prece e o par aproxima-se.

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Crítica: Batman v Superman – Dawn of Justice (2016)

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Mesmo depois de uma largada desapontante com “Man of Steel”, 2013 marcou oficialmente o momento em que a DC se juntou à corrida pelo tesouro que é o mundo geek ao marcar a sua presença na Meca do suor – a Comic-Con de San Diego – com a revelação de que o seu próximo filme iria finalmente juntar os “World’s Finest” em carne e osso . A julgar pela electricidade presente no ar desde então, a leitura de um breve excerto do famoso “The Dark Knight Returns” de Frank Miller e o vislumbre de um logotipo foi o suficiente para colocar desde logo a gigante das BD a um passo de ombrear o MCU da rival Marvel em termos de importância. E porque não? Para além de serem duas das mais reconhecidas e acarinhadas personagens em todo o Mundo puderiam também gozar do sucesso bombástico da recente trilogia de Christopher Nolan que ajudou a colocar o nome do Cavaleiro das Trevas no pedestal de onde este tinha caído nos anos 90. Restava agora fazer algo semelhante com o novo Super-Homem – a personagem de cariz ligeiro cuja nova origem soturna não lhe fez grandes favores – e garantir que a caracterização dos restantes membros da Justice League não se conformaria totalmente ao mesmo filtro emocional cinzento do filme anterior.

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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte IV

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Os restantes novos membros do elenco são criados debaixo do mesmo manto de preguicite – agora menos interessado em doutrinação – o que torna mais transparente os problemas de “The Force Awakens” ao nível da caracterização das suas personagens e do panorama principal da trama. Poe Dameron é claramente o Han Solo para a nova geração, o que automaticamente lhe garante um dos papéis mais cativantes mas o filme toma a decisão estranha de o chutar para canto bastante cedo, deixando o lugar à direita de Rey reservado para Finn, o stormtrooper renegado que desenvolve problemas de consciência no campo de batalha e que decide abandonar a Primeira Ordem. O primeiro é seguro, carismático, elegante e possui um espírito inabalável enquanto o segundo é mais inquisitivo, introvertido e deixa a sua moral tomar conta de si. Nesse caso porquê escolher a “pior” opção para servir como acólito durante a maior parte da película ao invés da “melhor”? Existem duas respostas possíveis para essa questão e ambas apontam o dedo (mais uma vez) aos homens da caneta: a existência de um receio que a presença masculina mais espampanante pudesse passar de secundária a principal quando colocada em contraste com a natureza mais tranquila da heroína ou então os guionistas simplesmente não sabiam como conter a atitude do piloto numa mistura adequada de arrogância, humor e romance durante duas horas. De qualquer forma Poe foi riscado da lista e o caminho ficou aberto para a opção mais conservadora.
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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte III

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

O casting é um dos poucos departamentos onde alguma vontade de inovar é sentida já que ao optar por uma panóplia mais variada de géneros, raças e (quiçá) orientações sexuais nos papéis principais é reflectida um pouco a mudança do panorama social desde os anos 70. A Disney tem sido uma das maiores impulsionadoras do movimento para diversificar o tipo de histórias que conta tal como os elementos a enaltecer dentro das mesmas. Por outra palavras: tirar cada vez mais o poder das mãos do Príncipe ariano da praxe e distribuí-lo por toda a variedade de membros que constituem a nossa praça. Esta é uma prioridade que está agora na berra mas não é propriamente nova. Sendo que o êxtase causado por “Frozen” – o estrondo crítico e de bilheteira que mergulhou o Mundo em repetições intermináveis de “Let It Go” – se deveu em parte ao louvor dado às protagonistas Anna e Elsa pelo bom exemplo que representam para crianças de toda a parte este teve direito a louvores de vitória social.

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